Agência FAPESP – A vida seria impossível sem as enzimas, responsáveis pela catálise das reações químicas nas células. Uma enzima específica é necessária, por exemplo, para quebrar as moléculas de amido e transformá-las em glicose.
Até a década de 1980 era predominante entre os cientistas a noção de que todas as enzimas eram proteínas. Mas, em trabalhos independentes, o canadense Sidney Altman e o norte-americano Thomas Cech demonstraram que moléculas de RNA também eram capazes de atividade catalítica e podiam agir como enzimas. A descoberta rendeu à dupla o Prêmio Nobel de Química de 1989.
Os trabalhos de Altman e Cech abalaram um dogma fundamental da bioquímica segundo o qual a informação só fluiria em um sentido: do DNA para o RNA e daí para as proteínas. Desse modo, os ácidos nucléicos seriam apenas moléculas de hereditariedade, enquanto as propriedades de catálise seriam exclusivas das proteínas.
Altman, que é professor do Departamento de Biologia Molecular e Celular da Universidade Yale, e Cech, do Instituto Médico Howard Hughes, descobriram, mais precisamente, as propriedades catalíticas da ribonuclease P (RNase P), enzima que contém uma subunidade catalítica de RNA.
Ao superar o chamado “dogma central”, a descoberta também gerou elementos para solucionar um antigo paradoxo: se proteínas só podem ser produzidas a partir da informação genética do DNA, como seria possível o início da vida na Terra, uma vez que as moléculas de DNA só podem ser reproduzidas e decifradas com a ajuda de proteínas? “Provavelmente a vida começou com uma molécula de RNA”, aponta Altman.
A descoberta do RNA catalítico também foi acompanhada da expectativa de desenvolvimento de novas ferramentas para tecnologias genéticas, com potencial para criação de novas defesas contra infecções virais: a RNase P e outros fragmentos do RNA poderiam ser utilizados para desativar genes dentro das células.
Até agora nenhuma dessas tecnologias foi desenvolvida. Para o cientista canadense, no entanto, a demora faz parte do processo científico. Em visita ao Brasil para apresentar uma conferência a estudantes do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), Altman concedeu à Agência FAPESP a entrevista a seguir.
Acompanhe a entrevista em:
http://www.agencia.fapesp.br/boletim_dentro.php?data[id_materia_boletim]=8161
Créditos
Fábio de Castro
Agência FAPESP