16/07/08
Brasil não possui um órgão responsável por regulamentar as alternativas para substituir ou reduzir o uso de animais em pesquisas
CAMPINAS (SP) - O embate entre cientistas e sociedades protetoras dos animais sobre o uso de cobaias em pesquisa está longe do fim. Embora sejam realizados estudos para substituir ou reduzir o número desses experimentos, no Brasil, ainda não existe um órgão responsável pela validação dessas alternativas.
“A gente não sabe quem organiza, regulamenta, autoriza... Nada!”, critica o pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, Octavio Presgrave. Segundo ele, os métodos alternativos usados hoje nas pesquisas e para fins educacionais não são oficialmente reconhecidos.
Apesar de atingirem bons resultados, são insuficientes para a substituição dos processos tradicionais, pois não seguem critérios previamente estabelecidos. “Precisamos de um centro para regulamentar isso”, reclama Presgrave em palestra na tarde desta terça-feira, durante a 60ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
De acordo com o pesquisador da Fiocruz, mesmo que o país tivesse um sistema de regulamentação, a tramitação para validar esses processos é lenta, demora cerca de dez anos. Entre as alternativas criadas estão o uso de tecidos artificiais que simulam a pele para o treino de práticas cirúrgicas e programas inteligentes de computador que prevêem as reações no organismo humano.
DESAFIOS - Ciente da importância do uso de animais na ciência, Presgrave revela que ainda não há como substituir completamente as cobaias. Mas países como os Estados Unidos e os da União Européia, mais à frente nessas questões, procuram reduzir o sofrimento com analgésicos ou mesmo tornar o ambiente menos estressante, com brinquedos e substituição de gaiolas.
A professora da Universidade de São Paulo (USP) Eleonora Trajano vai ainda mais a fundo nos desafios e impasses para o uso dessas alternativas. Ela questiona a falta de uma legislação única e a grande confusão que há nas leis estaduais. As normativas, acredita, misturam conceitos com conservação, bem-estar e ética.
“Elas se aplicam a um grupo de animais. Abordam os domésticos e esquecem de proteger os silvestres”, critica. “Usamos o nosso sofrimento como referência para definir o tratamento dado aos animais. Há correspondência com os vertebrados, mas sobre os invertebrados é difícil pensar por hora”, reitera.
Outro contra-senso apontado pela pesquisadora refere-se ao tratamento dado aos animais de produção. “Só vejo protecionistas fazendo matéria com os animais de laboratório, enquanto os de produção, muitas vezes, estão em condições piores”, reclama. Eleonora defende a revisão da legislação do setor e aponta condutas embasadas em um pensamento mais estruturado.
SERVIÇO
A 60ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) é realizado na Universidade de Campinas (Unicamp) e segue até sexta-feira, 18 de julho.
Textos: UnB Agência