A tuberculose (TB) é a doença infecciosa que mais mata no mundo e o aumento da resistência às drogas usadas no seu tratamento tem sido constatado em várias regiões, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Um dos fatores envolvidos na resistência às medicações é a mutação genética do bacilo causador da doença, o Mycobacterium tuberculosis, que difere entre países. No Brasil, as mutações ocorridas nas regiões Sul e Sudeste já são conhecidas. A mutação genética que ocorre no bacilo de pacientes do Nordeste poderá ser identificada por meio de um estudo que começa a ser desenvolvido na Fiocruz Pernambuco.
O objetivo é mapear e analisar as mais importantes alterações genéticas envolvidas na resistência aos fármacos antituberculose usados no tratamento da forma clássica da doença: a isoniazida (INH), a rifampicina (RMP) e pirazinamida (PZA). Com esse conhecimento será possível caracterizar novos marcadores genéticos que poderão ser utilizados no desenvolvimento de um kit de diagnóstico molecular específico para MDR. A pesquisa também pretende traçar um perfil epidemiológico e social dos pacientes com TB resistente e multidrogarresistente (MDR), inicialmente no estado Pernambuco.
De acordo com Lílian Montenegro, tecnologista do Departamento de Imunologia e aluna do doutorado em saúde pública da Fiocruz Pernambuco, a pesquisa se baseará na análise dos principais genes envolvidos na resistência aos fármacos, por meio das técnicas de amplificação por PCR (do inglês polimerase chain reaction - reação em cadeia de polimerase), clonagem e sequenciamento, de cepas de M. tuberculosis isoladas de pacientes confirmadamente resistentes.
As cepas a serem estudadas serão coletadas e processadas pelo Laboratório Central de Saúde Pública de Pernambuco (Lacen-PE), unidade referência no estado. A instituição é a responsável pela realização dos exames convencionais (baciloscopia e cultura com antibiograma) das amostras clínicas dos pacientes com suspeita da doença, encaminhados pelos Hospitais Otávio de Freitas e das Clínicas, ambos referências no tratamento da tuberculose multirresistente.
O aparecimento de casos de tuberculose MDR está relacionado ao tratamento abandonado, irregular ou feito com doses inadequadas da medicação, constituindo a chamada "resistência adquirida". No Brasil, o percentual de abandono do tratamento é de 8%, de acordo com o Ministério da Saúde. O percentual preconizado pela OMS é de menos de 5%.
Mas não são apenas os pacientes com problemas no tratamento que podem apresentar a TB multirresistente. As pessoas que nunca realizaram tratamento anterior para a forma clássica da patologia, podem desenvolver a forma resistente da doença, denominada como "resistência primária". O período prolongado de contágio dos doentes com tuberculose MDR pode provocar surtos, particularmente entre indivíduos com infecção HIV/Aids.
"A proposta é saber por que alguns pacientes não respondem as essas drogas e o que ocorre genomicamente com a bactéria. Com a pesquisa saberemos se as cepas isoladas do Nordeste são semelhantes ou diferem das do Sul e do Sudeste, contribuindo para a indicação de estratégias de controle da doença", afirma Lilian. Os primeiros resultados da pesquisa devem estar prontos em um ano.
Os métodos tradicionais utilizados no diagnóstico laboratorial levam, em média, de quatro a oito semanas para serem concluídos e têm pouca sensibilidade de detecção da bactéria, questões que favorecem o agravamento da doença. A avaliação do perfil de resistência aos medicamentos anti-TB é realizada em menos de 5% dos casos diagnosticados de tuberculose. "Somando a resistência dos bacilos aos fármacos antituberculose com o fato do tratamento dos doentes com tuberculose MDR ser prolongado e dispendioso, e da expectativa de cura ser menor do que nos esquemas convencionais, caracteriza-se um quadro de grave ameaça ao controle da TB", analisa Lilian.
Em 2007, foram registrados 72 mil novos casos de tuberculose no Brasil e 4,5 mil pessoas morreram em decorrência da doença. Do total de casos, 70% estão concentrados em 315 dos 5.565 municípios. As maiores incidências estão, por ordem, nos estados do Rio de Janeiro, Amazonas, Pernambuco, Pará e Ceará. A Região Centro-Oeste é a que apresenta a menor taxa do país.
Fonte: http://www.fiocruz.br/ccs/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=2529&sid=9
Créditos: Fabíola Tavares
(Origem: Biologias)