Em palestra no Instituto de Ciências Biológicas, o ganhador do Prêmio, Rolf Zinkernagel, aconselhou pesquisadores a exercitarem o olhar na busca de respostas nos experimentos científicos
Clareza, sensatez, trabalho duro e sorte são as pistas que levam a uma grande descoberta científica. Essa foi a mensagem de Rolf Zinkernagel aos quase 200 estudantes, professores e pesquisadores da Universidade de Brasília que lotaram auditório do Instituto de Ciências Biológicas, nesta quarta-feira, 26 de maio.
O ganhador do Prêmio Nobel de Medicina defendeu que o bom cientista é aquele que consegue aliar perguntas claras com os experimentos disponíveis e adequados à questão e, principalmente, sabe ver e interpretar as respostas. “Muitas vezes, o pesquisador está tão aficcionado com aquilo que quer encontrar que não vê o que já encontrou”, disse. E dá outro conselho. “Não tentem provar coisas fantásticas. As grandes descobertas nascem das perguntas mais simples”, acredita.
Para demonstrar como a simplicidade pode nortear pesquisas, Rolf Zinkernagel demonstrou alguns experimentos realizados nas universidades onde atuou, entre eles o que lhe garantiu o Nobel. Era o ano de 1973. Ele tinha acabado de chegar na Universidade Nacional da Austrália para aprofundar pesquisas na área de imunologia, que havia iniciado no mestrado em Lausanne, na Suíça, dois anos antes.
Em parceria com o professor Peter Doherty, ele introduziu o vírus da meningite em ratos. Em seguida, isolou na célula do animal o linfócito T, responsável pela defesa do corpo. O cientista sabia que para matar o vírus, o linfócito T teria de reconhecer o antígeno, molécula capaz de iniciar uma resposta imune. Foi quando se deu o inesperado. Rolf Zinkernagel percebeu que para iniciar o ataque ao vírus o linfócito T precisava reconhecer também outro elemento, o MHC (ver ilustração). “Foi quase um tropeço na sorte”, resumiu o cientista.
A sorte é para Rolf Zinkernagel um fator importante, por mais contraditório que isso pareça a um cientista. “Agora, sem trabalhar muito, e de maneira persistente, não há casualidade que ajude”, destaca. Para ele, é preciso experimentar. Incansavelmente. E a competição pode ser um ótimo ingrediente. “Ter um bom laboratório, e cheio de pessoas inteligentes, é muito importante. A competição interna impulsiona”, acredita.
A simplicidade do cientista e de seus conselhos impressionou alunos, professores e pesquisadores que assistiram à palestra. “Interessante ouvir que o mais importante é saber ver”, comentou a professora Andréa Maranhão, do Departamento de Biologia Celular. “Foi um privilégio ver de perto o autor da descoberta que permitiu uma série de outras pesquisas, já consolidadas, que vemos e estudamos hoje na universidade”, afirmou o estudante Felipe Diógenes, do 3º semestre de Medicina.
Para o professor Marcelo Brígido, a lição mais importante de Rolf Zinkernagel é a de que o cientista não deve criar dogmas em seus experimentos. “Muitas vezes queremos tanto encontrar um determinado resultado que deixamos de reconhecer o inesperado. E esse é o mistério da ciência”, disse.
Marcelo Brígido recebeu Rolf Zinkernagel em Brasília, que veio acompanhado da esposa Kathryn. Assim que desembarcou, o cientista pediu para conhecer a cidade. Passou pelo Memorial JK, Torre de Televisão e Esplanada dos Ministérios. Parou para uma conversa na Embaixada da Suíça e terminou o passeio na Universidade de Brasília. O Decanato de Pesquisa e Pós-Graduação (DPP) e o Instituto de Ciências Biológicas foram os responsáveis pela vinda do cientista a Brasília.
Fotos:
1,2 Luiz Filipe Barcelos/UnB Agência
3 Marcelo Jatobá/UnB Agência
Fonte: http://www.unb.br/noticias/unbagencia/unbagencia.php?id=3393
Créditos: Ana Lúcia Moura - Da Secretaria de Comunicação da UnB
(Origem: Biologias)